O Cerrado brasileiro já foi sinônimo de improdutividade. Solo ácido, pobre em nutrientes e com vegetação nativa de galhos tortos e folhas cerosas — características que refletem exatamente a dificuldade de nutrição natural do bioma. Onde hoje existem lavouras carregadas, havia pasto degradado, capim não palatável para o gado e baixíssima utilização da terra. A transformação dessa realidade é uma das histórias mais relevantes da agricultura mundial e começou, literalmente, embaixo dos pés.
A virada teve como ponto de partida a correção química do solo. Com o uso de calcário para neutralizar a acidez e a reposição de macro e micronutrientes, foi possível abrir caminho para culturas que jamais se desenvolveriam nas condições originais do bioma. A soja, que sequer era mencionada no primeiro simpósio do Cerrado, em 1982, tornou-se a principal cultura da região — seguida pelo milho — e hoje o binômio responde por parte expressiva da produção brasileira de proteína vegetal. “Corrigindo-se a acidez e a nutrição do solo, a gente tem um espaço enorme, imbatível no mundo para produzir soja e milho”, resume um agrônomo que acompanhou essa transformação desde o início.
O resultado surpreende até quem viveu essa transformação de perto. Áreas que antes mal sustentavam gado hoje produzem até 100 sacos de soja por hectare. O Cerrado, que ocupa uma posição geográfica privilegiada — com seis meses de chuva de boa qualidade e solos profundos — tornou-se um dos principais polos produtores de grãos, carne e energia do planeta. A conquista, porém, trouxe consigo uma nova responsabilidade: garantir que essa produtividade se sustente para as próximas gerações, com uso eficiente de água, nutrientes e tecnologia de manejo cada vez mais precisa.















