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Desastres climáticos atingiram mais de 90% dos municípios brasileiros em 33 anos

Os eventos climáticos extremos deixaram de ser problemas isolados e passaram a atingir praticamente todo o território brasileiro

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Os eventos climáticos extremos deixaram de ser problemas isolados e passaram a atingir praticamente todo o território brasileiro. Um estudo realizado por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta que, entre 1991 e 2024, 91,5% dos municípios do país registraram ao menos um desastre relacionado ao excesso ou à falta de chuva.

Publicada na revista científica Environmental Research Letters, a pesquisa analisou 59.658 ocorrências de inundações, enxurradas, alagamentos, tempestades, secas e deslizamentos de terra. Ao longo de 33 anos, esses eventos provocaram 4.774 mortes, mais de 3 mil desaparecimentos e prejuízos econômicos que ultrapassam US$ 123 bilhões.

Segundo os pesquisadores, os desastres são resultado não apenas das condições climáticas, mas também de fatores como ocupação inadequada do solo, deficiência na infraestrutura, falhas na gestão pública e limitações nos sistemas de prevenção e resposta.

Nordeste concentra maior número de cidades atingidas

O levantamento mostra que o Nordeste foi a região com mais municípios afetados, totalizando 1.765 cidades. Em seguida aparecem o Sudeste, com 1.405 municípios, o Sul, com 1.152, o Norte, com 433, e o Centro-Oeste, com 342.

Os dados também revelam que muitas localidades convivem com diferentes tipos de ameaças. Ao todo, 1.814 municípios registraram três categorias distintas de desastres, enquanto outros 270 sofreram com os quatro eventos analisados.

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Os impactos variam conforme a região do país. O Sudeste concentrou o maior número de mortes relacionadas a enchentes, enxurradas e deslizamentos. No Sul, as tempestades responderam pelo maior número de vítimas fatais, enquanto o Nordeste foi a região mais afetada pelos efeitos humanos das secas.

Do ponto de vista financeiro, enchentes e alagamentos provocaram os maiores prejuízos no Sul. Já os deslizamentos e as secas tiveram maior impacto econômico no Nordeste, enquanto as tempestades geraram perdas mais expressivas no Sudeste.

Tragédias recentes reforçam cenário

Entre os episódios destacados pelo estudo estão as fortes chuvas que atingiram São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, durante o Carnaval de 2023, causando dezenas de mortes, e a tragédia climática registrada no Rio Grande do Sul em maio de 2024, que afetou milhões de pessoas em centenas de municípios.

Os pesquisadores alertam, no entanto, que os impactos podem ser ainda maiores do que os registrados oficialmente, já que os dados dependem das notificações enviadas pelos próprios municípios aos sistemas nacionais de monitoramento.

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Em cidades com menor estrutura administrativa, parte dos danos humanos e materiais pode deixar de ser registrada, dificultando uma avaliação completa da dimensão dos desastres.

Prevenção precisa ganhar prioridade

O pesquisador Elton Vicente Escobar Silva, do Cemaden e primeiro autor do estudo, defende que os desastres não sejam vistos como fenômenos inevitáveis.

“Há exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, para a maioria dos eventos, órgãos nacionais como o Cemaden emitem alertas e o poder público é informado do que pode acontecer. O problema é a negligência, a falta de estrutura e até a ausência de atuação.”

Para ele, o conceito mais adequado é o de desastres socioambientais, já que os impactos resultam tanto das mudanças climáticas quanto das condições de ocupação do território e da capacidade de resposta das autoridades.

Os autores destacam que o Brasil avançou na produção de informações sobre eventos extremos, mas ainda precisa aperfeiçoar os sistemas de registro e fortalecer as políticas de prevenção. A expectativa é que novas versões das plataformas nacionais de monitoramento permitam uma visão mais integrada dos riscos e auxiliem na elaboração de estratégias para reduzir perdas humanas, sociais e econômicas antes que novos desastres aconteçam.

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