As formações localizadas variam bastante em tamanho. Algumas medem poucos metros de largura, enquanto outras superam o equivalente a 15 campos de futebol. De acordo com os arqueólogos, esses espaços eram usados pelos Aquiry para rituais e encontros sociais. O povo não dispunha de sistema de escrita.
A identificação das estruturas foi possível com o uso de aviões equipados com tecnologia LiDAR, um sistema de radar a laser que gera mapas tridimensionais do terreno mesmo sob a cobertura vegetal. Antes dessa técnica, os geoglifos conhecidos limitavam-se a áreas desmatadas, visíveis apenas em imagens aéreas e de satélite. A ferramenta permitiu enxergar formações escondidas sob as copas das árvores e ampliou a capacidade de encontrar vestígios arqueológicos.
O estudo, liderado por Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, também revisou as estimativas populacionais da civilização. No auge, por volta do ano 200 d.C., os Aquiry somavam entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes. Os cálculos sobre população e extensão do território consideraram a mão de obra necessária para erguer as obras de terraplanagem, já que o povo não usava ferramentas de metal nem animais de carga.
“Nós estimamos que uma comunidade de aproximadamente 300 pessoas, incluindo cerca de 60 homens adultos aptos para o trabalho, daria conta de criar uma dessas estruturas no prazo de um ano, sem abdicar das suas outras atividades de subsistência”, afirmou o pesquisador. Segundo ele, a maioria dos geoglifos permaneceu em uso contínuo por mais de 200 anos, e alguns deles por mais de mil anos.
O conhecimento sobre a floresta foi apontado como fator central para a construção das estruturas. Evandro Ferreira, botânico da Universidade Federal do Acre (Ufac), explica que os Aquiry dominavam os ciclos naturais da mata e planejavam a preparação do terreno com base nesse saber. De acordo com ele, no sul da Amazônia há extensas áreas de bambus, plantas com ciclo de vida de cerca de 28 anos. O povo provavelmente identificava as populações próximas do fim desse ciclo e usava o fogo para limpar o terreno antes da terraplanagem.
Quando os primeiros espanhóis alcançaram a região, no século 16, a civilização Aquiry já havia abandonado a maior parte dos geoglifos e se fragmentado em povoados indígenas menores, como os Apurinãs e os Manchineri. Para os pesquisadores, novas escavações e estudos sobre os geoglifos recém-descobertos podem esclarecer por que esse povo deixou de existir como grupo unificado após cerca de 1.500 anos de história. Para Evandro Ferreira, as estruturas preservadas até hoje comprovam a prosperidade alcançada pelos antigos habitantes da região antes da chegada dos europeus.