Neste inverno e até antes da sua chegada oficial, o Brasil vem experimentando uma sequência de dias de frio intenso. Cidades das regiões Sul e Sudeste registraram temperaturas abaixo dos 10°C, geadas cobriram paisagens urbanas e rurais, e sucessivos alertas meteorológicos chamaram a atenção para um cenário pouco comum. E, ao que tudo indica, a sensação de frio ainda está longe de terminar, já que novas frentes frias seguem avançando pelo País.
Enquanto isso, do outro lado do planeta, o desafio é exatamente o oposto. Estados Unidos e diversos países da Europa enfrentam ondas de calor extremo que vêm alterando a rotina de milhões de pessoas. Em várias cidades, os termômetros ultrapassaram os 40°C. Escolas precisaram suspender atividades, monumentos turísticos tiveram o acesso restringido, sistemas de transporte sofreram impactos e autoridades de saúde orientaram a população a evitar exposição ao sol nos horários mais quentes. São respostas paliativas a uma situação que já não é tão excepcional.
O problema agrava-se. A onda de calor extremo que castigou a Europa Ocidental na segunda quinzena de junho provocou mais de 10 mil mortes em excesso no período, sendo nove mil referentes a pessoas com 65 anos ou mais. Os dados são da EuroMOMO, rede apoiada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Somente na Alemanha, até 28 de junho, foram 5.120 mortes relacionadas ao calor, segundo o Instituto Robert Koch (RKI), órgão federal vinculado ao Ministério da Saúde.
À primeira vista, frio rigoroso em uma região e calor sufocante em outra podem parecer fenômenos sem qualquer relação. No entanto, ambos fazem parte da mesma realidade: a instabilidade crescente do sistema climático global.
Há décadas, a comunidade científica alerta para os efeitos do aquecimento global e para as consequências do aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. O mais recente relatório sobre o Estado do Clima Global 2025, divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), reforça essa preocupação ao destacar que mudanças rápidas e de grande escala ocorreram em poucas décadas, mas produzirão impactos que poderão perdurar por séculos e até milênios.
Os dados apresentados pela entidade são eloquentes. O período entre 2015 e 2025 corresponde aos 11 anos mais quentes já registrados na história das medições climáticas. Em 2025, a temperatura média global ficou cerca de 1,43°C acima dos níveis pré-industriais, desafiando o Acordo de Paris e constituindo uma trajetória de aquecimento que já não pode mais ser tratada como ameaça futura. É uma dura realidade presente.
É importante compreender que aquecimento global não significa que todos os lugares do planeta ficarão simplesmente mais quentes o tempo todo. O fenômeno altera o funcionamento da atmosfera e dos oceanos, modifica a circulação das massas de ar e aumenta a frequência e a intensidade dos eventos extremos. Em outras palavras, torna o clima menos previsível e mais instável.
Por isso, podemos testemunhar simultaneamente uma onda de frio intensa em parte do Brasil e temperaturas recordes em países do Hemisfério Norte. Não são acontecimentos isolados nem meras coincidências meteorológicas. São manifestações distintas de um mesmo desequilíbrio climático.
Diante desse cenário, existe um aspecto que merece ser reconhecido: o mundo não está parado. A transição energética avança em diversas regiões, impulsionada por novas tecnologias, investimentos em fontes renováveis e pela busca por modelos de desenvolvimento menos dependentes dos combustíveis fósseis. Governos, empresas e instituições têm ampliado seus compromissos de redução de emissões, enquanto a sustentabilidade ocupa espaço cada vez mais relevante na agenda global.














