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Um em um milhão

Pesquisadores desvendam lenda e confirmam existência do veado preto no Pantanal

Registros inéditos de melanismo em cervos-do-pantanal foram documentados por pesquisadores no Pantanal e no Cerrado; a descoberta em solo mato-grossense é considerada “um em um milhão”.
Pesquisadores desvendaram lenda e confiram a existência do veado preto no Pantanal. – Foto: Reprodução/T. E. S. Nascimento

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Por décadas, histórias sobre um misterioso cervo, ou veado, como é popularmente conhecido, de pelagem preta, circularam entre os habitantes mais antigos do Pantanal, mas a ciência nunca havia conseguido comprovar a existência desses animais. No entanto, o que antes era tratado apenas como lenda agora é um fato científico.

Um artigo em abril deste ano na revista Notas sobre Mamíferos Sudamericanos descreve os primeiros registros oficiais de melanismo no cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus).

A condição, chamada de melanismo, é uma mutação genética que provoca o excesso de pigmentação escura (melanina), resultando em um animal de pelagem preta ou marrom muito escura. Isso contrasta fortemente com a cor típica da espécie, que é um marrom-avermelhado vibrante.

Primeiros registros

O primeiro registro histórico ocorreu na reserva Caiman Pantanal, em Mato Grosso do Sul, no dia 26 de fevereiro de 2021. Na ocasião, uma fêmea adulta de coloração escura foi avistada e fotografada por membros da equipe do Onçafari.

Embora o registro oficial só tenha vindo agora, o documento menciona que relatos anedóticos de pantaneiros já existiam, citando inclusive um local chamado “Baía do Cervo Preto”, próximo à Estação Ecológica de Taiamã, em Cáceres (MT).

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Contudo, a surpresa maior veio do bioma Cerrado. Entre 2025 e 2026, pesquisadores que monitoravam o Parque Nacional Grande Sertão Veredas (entre a Bahia e Minas Gerais) identificaram pelo menos dois machos melânicos distintos.

Enquanto no Pantanal o fenômeno é considerado um evento de “um em um milhão” (um caso registrado em uma população de 40 mil indivíduos monitorada há 40 anos), no Cerrado a frequência foi curiosamente maior.

Novidade para a ciência

A ciência ainda tenta entender por que esses animais estão surgindo agora ou por que são mais comuns em certas áreas. No Cerrado, onde a espécie está criticamente ameaçada e as populações vivem isoladas em fragmentos de mata, os cientistas levantam a hipótese de que o isolamento geográfico e o cruzamento entre parentes (endogamia) possam facilitar a expressão dessa característica genética rara.

Apesar da beleza exótica, a vida de um “veado-preto” não é fácil. Os pesquisadores alertam que a cor escura pode ser uma desvantagem perigosa, tornando o animal um alvo mais fácil para predadores como a onça-pintada, além de dificultar o controle da temperatura corporal sob o sol forte e reduzir a proteção contra raios UV.

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O estudo foi realizado por equipes da Associação Onçafari e da Embrapa Pantanal, utilizando armadilhas fotográficas e observações diretas em campo. O trabalho foi dedicado à memória de Diogo Luis Lucatelli Doria Santana, um dos autores do estudo e biólogo do Onçafari, que faleceu antes da publicação deste marco para a zoologia sul-americana.

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