A COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) está em curso em Ulaanbaatar, na Mongólia, de 17 a 28 de agosto, sob o tema “Restaurando a terra, restaurando a esperança” — Restoring Land, Restoring Hope. As 197 Partes da Convenção se encontram com governos, empresas, cientistas, sociedade civil, povos indígenas, comunidades locais, pastores, agricultores e jovens para discutir desertificação, degradação da terra e seca.
A degradação já afeta até 40% das terras do planeta. Na Mongólia, quase 77% do território é considerado degradado. Dados do Instituto Nacional do Semiárido (INSA) mostram que cerca de 18% do território brasileiro está em Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD) e entorno, o equivalente a aproximadamente 1,514 milhão de km² abrangendo 1.649 municípios em 9 estados da região semiárida do Nordeste, além do Norte de Minas Gerais, Espírito Santo e, recentemente, o nordeste do Rio de Janeiro e noroeste do Mato Grosso do Sul. Quando o solo perde capacidade de infiltrar e reter água, sustentar vegetação e manter fertilidade, o problema não se mede apenas em hectares perdidos. A paisagem passa a regular pior a água, aumenta a erosão e fica mais vulnerável à seca.
É aqui que a COP17 toca num ponto decisivo, onde restauração não é apenas recuperação ambiental. É infraestrutura de resiliência. Reduz riscos e sustenta água, alimentos, energia e cadeias produtivas. Quando essa infraestrutura falha, a conta aparece no abastecimento, na agricultura, nos seguros, na energia e em obras cada vez mais caras para tentar substituir funções que a paisagem deixou de exercer.
A programação da COP confirma essa mudança de escala. A segunda semana foi organizada em quatro dias temáticos: Finanças, Água, Terra e Pessoas, e Sistemas Alimentares e Saúde do Solo. A Action Agenda foi desenhada para aproximar decisões políticas de soluções aplicáveis nos territórios. A água ter um dia próprio, em 25 de agosto, é um sinal importante. O Dia da Água – Water Day foi estruturado em torno do nexo terra–água, com discussões sobre retenção de água nas paisagens, recuperação de solos e vegetação, áreas úmidas como infraestrutura natural, agricultura resiliente à seca, governança integrada e prevenção da chamada “falência hídrica” de cidades, operadores de serviços e bacias.
A mesma lógica chegou às negociações. O debate sobre o marco estratégico pós-2030 da UNCCD inclui gestão proativa da seca, manejo sustentável de terra e água, monitoramento, mobilização de recursos, inclusão, articulação ciência-política e coerência entre políticas. Não basta restaurar mais, será preciso criar condições institucionais capazes de sustentar resultados mensuráveis no tempo.
E aí chegamos ao outro grande teste de Ulaanbaatar: financiamento.
A avaliação financeira da UNCCD estima cerca de US$ 355 bilhões por ano necessários até 2030 para cumprir as metas globais de restauração e enfrentar desertificação, degradação e seca. Mas o investimento atual é da ordem de US$ 77 bilhões anuais, deixando um déficit de US$ 278 bilhões. O dado mais incômodo é outro, a inação que custa cerca de US$ 878 bilhões por ano, enquanto cada dólar investido em restauração pode gerar até oito dólares em benefícios sociais, econômicos e ambientais.
Esses números deveriam mudar a visão porque ainda perguntamos quanto custa restaurar. Precisamos perguntar, com a mesma precisão, quanto custa não restaurar. Quanto perde uma bacia que deixa de regular água? Quanto perde a agricultura quando o solo deixa de reter umidade, nutrientes e reduz a produção? Qual é o custo para uma cidade quando sua segurança hídrica se torna menos confiável?
Financiamento, porém, não pode entrar no fim da fila. Precisa ser parte da arquitetura da restauração desde o início. Isso implica combinar orçamento público, capital concessional, filantropia, crédito, garantias, seguros, investimento privado e pagamento por resultados; além de assistência técnica, carteiras de projetos e monitoramento e verificação de resultados. O Dia do Financiamento – Finance Day discutirá garantias, instrumentos financeiros vinculados a desempenho e financiamento combinado – blended finance, enquanto o Dia da Água – Water Day prevê o lançamento do Mecanismo de Investimento em Resiliência à Seca – Drought Resilience Investment Facility (DRIF), destinado a mobilizar capital público e privado para resiliência à seca, infraestrutura hídrica e restauração integrada de terra e água.
O gargalo não é apenas encontrar dinheiro. É transformar soluções necessárias em projetos financeiramente sustentáveis, mensuráveis e escaláveis.
Para o Brasil, essa discussão encontra uma agenda concreta: revitalizar bacias hidrográficas. Recuperar nascentes e áreas degradadas, conservar solos, proteger áreas úmidas e ampliar soluções baseadas na natureza exigem mais do que somar boas iniciativas. Exige priorização territorial baseada em risco, governança, indicadores, monitoramento e carteiras de investimento por bacia capazes de conectar políticas públicas, instrumentos da gestão das águas, fundos climáticos e ambientais, bancos de desenvolvimento, empresas e investidores.
O teste de Ulaanbaatar é menos o tamanho dos compromissos e mais sua capacidade de transformar restauração e resiliência à seca em prioridades econômicas. Criar condições institucionais e financeiras para ganhar escala, e integrar terra, água, clima, biodiversidade, produção e desenvolvimento na mesma arquitetura de decisão.
O risco já é conhecido, sair de mais uma conferência com compromissos maiores do que a capacidade de implementá-los. Mas a oportunidade também é clara. Restaurar a terra não é simplesmente recuperar hectares. É devolver à paisagem capacidade de regular água, sustentar alimentos, renda e biodiversidade. E reconhecer essa capacidade como infraestrutura essencial para economias resilientes.














