As geleiras do mundo perderam 1,4 trilhão de toneladas de água em três anos, de 2023 a 2025, volume equivalente à quantidade necessária para encher aproximadamente 560 milhões de piscinas olímpicas. O derretimento acelerado pelas mudanças climáticas aumenta os riscos de inundações e insegurança hídrica, além de contribuir para o desequilíbrio do clima. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (17) pela Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), no relatório Estado dos Recursos Hídricos Globais 2025.
Só no ano hidrológico de 2025, de outubro de 2024 a setembro de 2025, as geleiras perderam 408 bilhões de toneladas de massa. As regiões da Ásia Central, Sul da Ásia, Ártico Russo, Islândia e Oeste do Canadá e dos Estados Unidos registraram balanços de massa anuais entre os três mais negativos já observados nessas áreas. Algumas geleiras menores no Cáucaso, na Europa Central e no Oeste do Canadá e dos Estados Unidos já podem ter atingido o chamado “pico de disponibilidade hídrica”, que ocorre quando o derretimento de uma geleira atinge o volume máximo de água que ela fornece. A partir desse ponto, a redução do volume de gelo faz com que a contribuição para os recursos hídricos diminua.
“A água não respeita fronteiras. O balanço hídrico de uma bacia hidrográfica depende do que acontece em outro país. O recuo de uma geleira em um país altera a disponibilidade de água para populações a centenas de quilômetros rio abaixo”, diz Celeste Saulo, secretária-geral da WMO.
O relatório não se restringe ao derretimento de geleiras. O documento apresenta informações sobre a vazão dos rios, as águas subterrâneas, a evapotranspiração, o armazenamento de água e umidade no solo, a neve e os eventos extremos relacionados à água.
Segundo a WMO, os dados mostram que o ciclo da água se tornou mais errático e imprevisível, oscilando entre níveis muito baixos e muito altos. Saulo afirma que, somado às condições atuais, o fortalecimento do fenômeno natural El Niño aumentará o risco de seca em algumas áreas e de inundações em outras.
Em relação à vazão dos rios, 2025 foi um dos anos mais secos dos últimos 35 anos, entre 1991 e 2025. Aproximadamente 36% da área global de bacias hidrográficas apresentou condições mais secas do que o normal. Na América do Sul, grandes áreas do sistema do Rio da Prata, incluindo a bacia do Paraná, assim como a bacia do São Francisco, registraram vazões abaixo ou muito abaixo do normal. Ao considerar um período de cinco anos, a bacia do Amazonas aparece com uma vazão fluvial recorrentemente abaixo do normal.
Os níveis das águas subterrâneas, em comparação com o período de 20 anos entre 2001 e 2020, ficaram abaixo ou muito abaixo do normal em 34% das estações monitoradas pela WMO. Em 2024, eram 25%. A Europa Central e Oriental foi uma das regiões mais afetadas. No Brasil, foram observados níveis persistentemente abaixo do normal no Nordeste e no Centro-Oeste. “Os déficits persistentes e generalizados de águas subterrâneas apontam para um esgotamento cumulativo que um único ano normal ou chuvoso pode não ser suficiente para reverter”, diz o relatório.
A quantidade total de água armazenada em terra, que inclui as águas subterrâneas, a água em lagos e rios, a armazenada na vegetação, no gelo e na neve e a umidade do solo, está em declínio desde meados da década de 2010. No ano passado, níveis abaixo do normal persistiram em várias regiões importantes, incluindo o leste do Brasil, dando continuidade ao padrão observado em 2024.
Celeste Saulo explica que alguns componentes do ciclo da água são rápidos, como a chuva, o fluxo dos rios e a umidade do solo. Eles respondem às condições climáticas em dias ou semanas. Outros, como as águas subterrâneas, as geleiras e a cobertura de neve sazonal, são lentos, acumulando-se ou se esgotando ao longo de estações, décadas ou períodos ainda mais longos. “Tradicionalmente, essas reservas lentas têm atuado como a poupança do planeta: uma espécie de amortecedor que absorve os anos ruins, de modo que uma única seca ou uma única estação seca não se traduza diretamente em uma crise hídrica. Estamos esgotando essa reserva”, diz Saulo.
O relatório também destaca os eventos climáticos extremos relacionados à água. Segundo a instituição, a Ásia e a África foram responsáveis por pelo menos metade de todos os eventos hidrometeorológicos extremos registrados e por mais de 80% das mortes associadas a eles nos últimos cinco anos.
Em 2025, a WMO contabilizou, em 91 países membros, 404 eventos, sendo 61,6% considerados incomuns e 30% sem precedentes no ano. Uma seca severa atingiu o Leste Europeu, a região do Mediterrâneo e o Oriente Médio, com a Turquia, a Síria e a Jordânia registrando as condições mais secas das últimas décadas. A seca também voltou ao Chifre da África após um dos períodos de outubro a dezembro mais secos já registrados, o que levou à decretação de emergência nacional na Somália.
Por outro lado, outros países africanos enfrentaram grandes inundações por dois anos consecutivos, como a Nigéria, e por três anos seguidos, como a República Democrática do Congo. O Sul e o Sudeste Asiático foram prejudicados pelos efeitos combinados de ciclones tropicais e chuvas intensas de monções, que deixaram cerca de 3,6 mil mortos no Sri Lanka, Paquistão, Vietnã, Indonésia, Tailândia, Malásia e Filipinas.
Geleira Plaine Morte, no oeste da Suíça, em 1º de setembro de 2026. Assim como as geleiras de toda a Suiça, Plaine Morte tem recuado devido às mudanças climáticas. Crédito: FABRICE COFFRINI / AFP















